| Povo
Guarani
Organização social, política e religiosa
Os
lugares onde os Guarani formam seus assentamentos familiares
são identificados como tekoa. Conforme tradução,
tekoa seria o lugar onde existem as condições
de se exercer o “modo de ser” guarani. Para
que se desenvolvam relações de reciprocidade
entre os diversos tekoa Mbya é preciso que estes,
em seu conjunto, apresentem certas constantes ambientais
(matas preservadas, solo para agricultura, nascentes etc.)
que permitam aos Mbya exercerem seu “modo de ser”
e aplicar suas regras sociais.
As aldeias Guarani podem ser formadas a partir de uma família
extensa, desde que tenha uma chefia espiritual e política
própria. A média populacional das aldeias
Guarani Mbya varia, entre 20 a 200 pessoas. A organização
espacial interna das aldeias é determinada pelas
relações de afinidade e consanguinidade. Segundo
os padrões tradicionais Guarani, a família
extensa é composta, em princípio, pelo casal,
filhos, genros e netos, constituindo-se numa unidade de
produção e consumo.
Atualmente, cada comunidade tem um chefe político,
o cacique, ao qual estão subordinadas jovens lideranças
para intermediar nas relações entre a comunidade
indígena e os representantes do Estado e vários
setores da sociedade civil. Até meados da década
de 1990 era comum o líder espiritual e religioso
exercer também a chefia política na comunidade.
Em períodos de muitas atribulações
decorrentes do contato, como ocorre atualmente, esta prática
é impossível, pois o líder espiritual
precisa ser preservado. Entre os Mbya, a liderança
espiritual é exercida pelo Tamoi (avô, genérico)
e seus auxiliares (yvyraija), podendo ser exercida também
por mulheres Kunhã Karai.
Clique
para ampliar |
|
Quati
(Nasua nasua) como animal doméstico, prática
frequente na cultura Guarani Myba |
As
práticas religiosas dos Mbya são freqüentes
e se estendem por muitas horas. Orientadas pelo dirigente
espiritual, as “rezas” - realizadas através
de cantos, danças e discursos - também voltam-se
às situações e necessidades corriqueiras
(colheita, ausência ou excesso de chuva, problemas
familiares, acontecimentos importantes, imprevistos etc.).
Os Mbya (e os Ñandeva) constroem e mantêm uma
casa para a prática de rezas e rituais coletivos,
opy guaçu, localizada próxima ou mesmo agregada
à casa do tamõi.
O
Nheemongarai é a principal cerimônia realizada
na Opy, quando os cultivos tradicionais são colhidos
e “abençoados” e são atribuídos
os nomes às crianças nascidas no período.
Esta cerimônia deve coincidir com a época dos
‘tempos novos’ (ara pyau), caracterizado pelos
fortes temporais que ocorrem no verão. Assim, a associação
entre a colheita do milho e a cerimônia do seu ‘benzimento’
e da atribuição dos nomes-almas impõe
o calendário agrícola e a permanência
das famílias nas aldeias (Ladeira, 1992).
O
acervo mitológico Guarani é extremamente rico
e complexo. Por sua vez, os Mbya vêm incorporando
ao seu acervo mitológico, interpretações
e acontecimentos vividos e veiculados entre eles. Ao longo
de sua história, o cotidiano está impregnado
de relações míticas, advindas da comunicação
com as divindades. Assim, “as tradições
são postas em prática secularmente, segundo
os princípios dos mitos que fundamentam o pensamento
e ações dos Mbya” (Ladeira, 1992). |
|