JOSÉ VARELLA

Conceito de Ecocultura Amazônica

 
   

Pode-se considerar um modelo de cultura pós-moderna tendo preocupação ecológica e/ou de revitalização de usos e costumes ancestrais resultantes da relação direta Homem e Biosfera, sob termo geral de “Ecocultura”.

O que caracterizaria um elemento ecocultural é o continum evolutivo da natureza passando à categoria de cultura através do elo natural entre homem “primitivo” e “civilizado”. Por esta teia sem fim a filosofia antropoética de um Edgar Morin sintetiza matéria e energia, corpo e espírito, indivíduo e coletividade; a parte e o todo: como uma coisa única, mutante e inseparável em contínua dialética de destruição/recriação (vida-e-morte). Conceito neo-renascentista da latinidade pós-moderna do qual o marrano Benedito Espinosa, tanto quanto o barroco surrealista judaizante Antônio Vieira (jesuíta expulso pelos colonos da Amazônia portuguesa e condenado pelo Santo Ofício) não ficariam excomungados ad aeternum...

O conceito de ecocultura implica, naturalmente, uma aventura neurolingüística do autoconhecimento do universo através de seus elementos humanos sensíveis e formadores da humanidade. Trata-se de um humanismo ecumênico e antropofágico, ao mesmo tempo. Onde o fenômeno da palavra simboliza a realidade jamais inteiramente compreendida e totalmente experimentada. Ele se reveste para o homem ajuizado, portanto, de uma capa de modéstia e prudência diante de seus prováveis limites (“Conhece-te a ti mesmo!”) face à grandeza da matéria e do maravilhoso do espírito (como as duas faces de uma única moeda), ambos incompreensíveis em seu todo.

Trata-se dum enigma e paradoxo incontornável (“decifra-me ou devoro-te”): Dessacralizar o imortal tempo arqueológico deste mundo (como querem os tecno-sinistros, herdeiros do Iluminismo extrativista pai e mãe da “acumulação primitiva” do Capital global que se converteram em apóstolos burgueses do terrorismo robótico do Big Brother; denunciado por George Orwell, em “1984”) é reduzi-lo a um amontoado de disparates e uma montanha de absurdos, cujo cume fugindo do “vale de lágrimas” das ruas e rios da Fome aponta à Evasão celestial da loucura planetária.

Todavia, pretender ainda tornar a terra humana num reino ideal e perfeito pela “luz” da Razão e Beleza ou santuário do Bem é consagrá-lo ao império do Medo e da Morte em vida; isto é lesar a própria experiência da vida: que é a possibilidade espiritual/material de criar, renovar e experimentar a alegria do Ócio (atributo dos deuses olímpicos) e o entusiasmo (do grego, “deus em pessoa humana”) da existência: o que implica nisto o erro, o fracasso e o risco da tragédia (cuja precária “solução” é a tolerância e o perdão sempre problemáticos no interior da comunidade humana)... Forma humana pela qual o “divino e maravilhoso” se manifesta no mundo dos mortais: modo pelo qual estes últimos comungam da imortalidade enquanto dura seu particular suspiro de vida...

Não há como negar que tendência espiritual (plena de odor pagão) como esta é digna de caboclos ribeirinhos descendentes de índios e também uma formidável heresia; com a boa desculpa de que não há ortodoxia que antes não tenha sido, no berço; uma herética errância... Como foi o caso da revolução libertadora conduzida por Moisés (sob instigação, talvez, de seu sogro árabe do oásis de Madiã, no deserto do Sinai) no seio do sistema escravocrata dos faraós do Egito. Ou, na província da Judéia e periferia do império romano, a seita dos Nazarenos, protocristãos, por exemplo. Ou os caraíbas tupi-guaranis – por que não? – reagindo à pressão dominadora dos Incas sobre a área do Peabiru...






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Mas, o que teria dito o fundador da Eclésia universal Jesus de Nazaré (em espírito, a um periclitante homem que fugia ao caos), numa Roma em crise de decadência: dividida em ardidas lutas e alienação enquanto o sucessor Pedro, muito natural e humanamente, buscava salvar a pele diante do perigo? Quo vadis (aonde vais)?

Eis uma questão prática à la matemática de Pascal: “é preciso apostar”! Onde há aposta existe fé e crença em algum possível futuro (por isto, o Brasil é um país cheio de fé e pleno de gosto por jogos de quaisquer espécies)... Quo vadis levar a tua aposta, Brasil? E tu, ó colossal Ocidente cristão, aonde vais? Que não se ouve a voz que vem dos confins da Terra e dos umbros da Floresta Amazônica...

Tanto faz se aquela enigmática “voz” da consciência (talvez, o Jurupari face a um pajé no interior de uma maloca no Rio Negro atacada pelo colonialismo português), ou no silêncio das portas da decadência pagã de Roma, durante a subversão cristã; tenha surgido do nada através do espaço cósmico. Tanto faz que ela tenha brotado das entranhas neuronais do indivíduo despedaçado pelo dilema da sua escolha em um cérebro afetada pela esclerose ou a senilidade... Em qualquer caso, o resultado histórico é o mesmo. E a solução do momento leva a outro ou a outros problemas... Assim caminha a humanidade: diversa, complexa e simultaneamente.

Aonde vai agora a gloriosa civilização ocidental-judaico-cristã-islâmica – seu fino verniz laico, seu republicanismo de salão! – no torvelinho monoteísta e fratricida que a gerou (provavelmente, no confronto entre a ortodoxia faraônica pré-mosaica e a heresia revolucionária do deus-sol Aton, no Egito antigo)? Sobrecarregada pela insustentável carga de novas “pirâmides” e as calamidades que por isto suscita a seus “servos”; suas minas canibalescas violando entranhas da Terra, que estranhos confortos (se não vícios consumistas) irão produzir em cortes mais distantes do chão da terra do que a velha aristocracia do ancién régime? As chaminés fumegantes de pulmões carbonizados, suas chuvas ácidas; o efeito estufa sitiando sinistras torres de Babel, seus “paraísos” fiscais incentivados pelo capital inicial dos “trinta dinheiros” da jogada política de Judas Iscariotes, tentado pelo fascismo à custo da universalidade da palavra do Mestre da Galiléia (esta região ancestral de contato e mistura com o Estrangeiro, como o nome indica). A tentação totalitária dos respectivos fundamentalismos e ortodoxias herdadas da mumificação do passado histórico...
A onde vai esse mundo desvairado? Que não olha mais atrás a seus primórdios: entre arcaicos Terapeutas e Profetas (para não dizer, xamãs) aramaicos, condoídos pela miséria humana e o sofrimento de seus semelhantes...

Aonde vais, ó mundo civilizado? É a pergunta que poderosos anticristãos travestidos em fiéis do Senhor Jesus e Católicos Apostólicos Romanos de primeira linha se deveriam fazer, sem mais demora, quando atacam a fé (ou a falta desta ou qualquer outra) alheia e diabolizam ainda devotos do “endiabrado” Jurupari (segundo Capuchinhos franceses da France Equinoxiale ou Maranhão, 1613/1615; o Diabo em pessoa viajando ao ultramar a fim de arruinar a obra de Cristo...).

Sinais do tempo pós-moderno: Graças a Deus, que o pastor Martin Luther King não renegou seu sonho igualitário nem fugiu da imolação pelos Direitos Humanos dos descendentes de escravos na América Wasp (branco-anglo-saxão-e-protestante)... Que o Prêmio Nobel da Paz enxergou a índia centro-americana Rigoberta Menchu. Que o mártir-seringueiro Chico Mendes não recuou do caminho dos tratores e motosserras para o desvio de uma conta bancária, e por arte de um tiro assassino disparatado entrou na história da Floresta Amazônica... Que o Papa João Paulo II mostrou o caminho do arrependimento e reconciliação a esses broncos coloniais que infernizaram a vida do Padre Antônio Vieira, esquecidos e arrogantes cristãos modernos; com o solene pedido de perdão, em Santo Domingo nos 500 Anos da “descoberta” de Colombo; pelas grandes misérias que a Cristandade fez recair sobre a humanidade de Índios e Negros ultrajados nas Índias Ocidentais. Até hoje apenas um gesto pastoral que precisa ter conseqüências efetivas na práxis dos estados cristãos modernos.

Com a elogiável exceção política do pedido de perdão do Presidente do Brasil aos africanos por motivo do tráfico negreiro em nossa história nacional, durante viagem oficial a África, neste mês de abril de 2005 (quando o “descobrimento” de Pedro Álvares Cabral completa 505 anos), no Senegal, diante do memorial da Escravidão. Cujos reis negros daquela época, à exemplo dos filhos de Jacó e caciques indígenas no Brasil também; venderam seus irmãos aos donos do poder, muitas vezes estes últimos cobertos pelo manto de Cristo.

De modo que, no “fim da História”, fica difícil saber quem é mocinho ou bandido: sendo justo e perfeito pedir e conceder perdão a todos... Com a efetiva providência da re-invenção de uma Terra sem mal para todos os povos do planeta.

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