Mas, o que teria dito o fundador
da Eclésia universal Jesus de Nazaré (em espírito,
a um periclitante homem que fugia ao caos), numa Roma em crise
de decadência: dividida em ardidas lutas e alienação
enquanto o sucessor Pedro, muito natural e humanamente, buscava
salvar a pele diante do perigo? Quo vadis (aonde vais)?
Eis uma questão prática à la matemática
de Pascal: “é preciso apostar”! Onde há aposta existe
fé e crença em algum possível futuro (por
isto, o Brasil é um país cheio de fé e pleno
de gosto por jogos de quaisquer espécies)... Quo vadis
levar a tua aposta, Brasil? E tu, ó colossal Ocidente cristão,
aonde vais? Que não se ouve a voz que vem dos confins da
Terra e dos umbros da Floresta Amazônica...
Tanto faz se aquela enigmática “voz” da consciência
(talvez, o Jurupari face a um pajé no interior de uma maloca
no Rio Negro atacada pelo colonialismo português), ou no
silêncio das portas da decadência pagã de Roma,
durante a subversão cristã; tenha surgido do nada
através do espaço cósmico. Tanto faz que
ela tenha brotado das entranhas neuronais do indivíduo
despedaçado pelo dilema da sua escolha em um cérebro
afetada pela esclerose ou a senilidade... Em qualquer caso, o
resultado histórico é o mesmo. E a solução
do momento leva a outro ou a outros problemas... Assim caminha
a humanidade: diversa, complexa e simultaneamente.
Aonde vai agora a gloriosa civilização
ocidental-judaico-cristã-islâmica – seu fino verniz
laico, seu republicanismo de salão! – no torvelinho monoteísta
e fratricida que a gerou (provavelmente, no confronto entre a
ortodoxia faraônica pré-mosaica e a heresia revolucionária
do deus-sol Aton, no Egito antigo)? Sobrecarregada pela insustentável
carga de novas “pirâmides” e as calamidades que por isto
suscita a seus “servos”; suas minas canibalescas violando entranhas
da Terra, que estranhos confortos (se não vícios
consumistas) irão produzir em cortes mais distantes do
chão da terra do que a velha aristocracia do ancién
régime? As chaminés fumegantes de pulmões
carbonizados, suas chuvas ácidas; o efeito estufa sitiando
sinistras torres de Babel, seus “paraísos” fiscais incentivados
pelo capital inicial dos “trinta dinheiros” da jogada política
de Judas Iscariotes, tentado pelo fascismo à custo da universalidade
da palavra do Mestre da Galiléia (esta região ancestral
de contato e mistura com o Estrangeiro, como o nome indica). A
tentação totalitária dos respectivos fundamentalismos
e ortodoxias herdadas da mumificação do passado
histórico...
A onde vai esse mundo desvairado? Que não olha mais atrás
a seus primórdios: entre arcaicos Terapeutas e Profetas
(para não dizer, xamãs) aramaicos, condoídos
pela miséria humana e o sofrimento de seus semelhantes...
Aonde vais, ó mundo civilizado?
É a pergunta que poderosos anticristãos travestidos
em fiéis do Senhor Jesus e Católicos Apostólicos
Romanos de primeira linha se deveriam fazer, sem mais demora,
quando atacam a fé (ou a falta desta ou qualquer outra)
alheia e diabolizam ainda devotos do “endiabrado” Jurupari (segundo
Capuchinhos franceses da France Equinoxiale ou Maranhão,
1613/1615; o Diabo em pessoa viajando ao ultramar a fim de arruinar
a obra de Cristo...).
Sinais do tempo pós-moderno:
Graças a Deus, que o pastor Martin Luther King não
renegou seu sonho igualitário nem fugiu da imolação
pelos Direitos Humanos dos descendentes de escravos na América
Wasp (branco-anglo-saxão-e-protestante)... Que o Prêmio
Nobel da Paz enxergou a índia centro-americana Rigoberta
Menchu. Que o mártir-seringueiro Chico Mendes não
recuou do caminho dos tratores e motosserras para o desvio de
uma conta bancária, e por arte de um tiro assassino disparatado
entrou na história da Floresta Amazônica... Que o
Papa João Paulo II mostrou o caminho do arrependimento
e reconciliação a esses broncos coloniais que infernizaram
a vida do Padre Antônio Vieira, esquecidos e arrogantes
cristãos modernos; com o solene pedido de perdão,
em Santo Domingo nos 500 Anos da “descoberta” de Colombo; pelas
grandes misérias que a Cristandade fez recair sobre a humanidade
de Índios e Negros ultrajados nas Índias Ocidentais.
Até hoje apenas um gesto pastoral que precisa ter conseqüências
efetivas na práxis dos estados cristãos modernos.
Com a elogiável exceção política do
pedido de perdão do Presidente do Brasil aos africanos
por motivo do tráfico negreiro em nossa história
nacional, durante viagem oficial a África, neste mês
de abril de 2005 (quando o “descobrimento” de Pedro Álvares
Cabral completa 505 anos), no Senegal, diante do memorial da Escravidão.
Cujos reis negros daquela época, à exemplo dos filhos
de Jacó e caciques indígenas no Brasil também;
venderam seus irmãos aos donos do poder, muitas vezes estes
últimos cobertos pelo manto de Cristo.
De modo que, no “fim da História”, fica difícil
saber quem é mocinho ou bandido: sendo justo e perfeito
pedir e conceder perdão a todos... Com a efetiva providência
da re-invenção de uma Terra sem mal para todos os
povos do planeta.
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