A enorme comoção internacional causada pela 2ª
Guerra Mundial (e o medo permanente da eclosão de uma terceira
guerra mundial) despertou a consciência das nações
para extrema necessidade da paz em toda Terra. A dantesca constatação
da perda dessa paz, viu-se claramente no Holocausto dos judeus pelos
nazistas, no horror atômico em Hiroxima e Nagasaki. E, posteriormente,
durante a Guerra-Fria na continuação desenfreada da
cultura belicista e intolerante que desabona a espécie humana
diante de seu próprio ideal de superioridade face aos animais;
derivada da humilhação e do desrespeito aos direitos
inatos de todo e qualquer ser humano. O que é violação
do direito natural das gentes, desde o código de Hamurabi,
do decálogo de Moisés, assim que das maiores religiões
da humanidade como o Budismo, por exemplo.
O embaixador brasileiro Rubens Ricupero, atual diretor-geral da
Conferência das Nações Unidas sobre Comércio
e Desenvolvimento – UNCTAD, disse certa vez através de artigo
na imprensa que o saldo positivo do século XX ficaria tão-só
na consolidação dos Direitos Humanos e da proteção
do meio ambiente. O intelectual francês André Malraux
já havia sentenciado antes que este século será
espiritual ou não poderá ser considerado propriamente
“XXI”, isto é: novo tempo; contraposto à repetição
de um passado desalentador.
A nossa Amazônia brasileira, no alvorecer do século
XXI, se acha na mais preocupante encruzilhada da sua história.
Na qual se teme, às vezes, o fato de que estes Direitos Humanos
e essa defesa ambiental venham eventualmente descambar em injustiça
e atos imperiais em nome da humanidade. Refiro-me à propalada
ameaça de “internacionalização” (leia-se, tutela
das potências industrializadas). Muitas vezes, a chamada “cobiça
estrangeira” versus a “segurança nacional” empurraram esta
região, no célebre dizer de Euclides da Cunha, para
a margem da História. Em que o impasse gerado no passado
colonial, que se abateu na região equatorial durante quatro
séculos; faz dela figuração de marisco apertado
entre o mar e o rochedo.
Deste modo, o futuro para nós será mais em função
da geografia humana do que da história. Pois largas parcelas
das populações tradicionais amazônicas, notadamente
caboclas; se tornaram uma gente formada não apenas de sem-terra,
mas, principalmente, povos sem-história. Não é
que se precise – em nome dos direitos humanos e da proteção
do meio ambiente – “reinventar” a Amazônia, mas sim resgatar
a sua antigüidade humana. Cuja certidão de nascimento
se destrói e se perde lenta e inexoravelmente nos sítios
arqueológicos da Ilha do Marajó e nas pinturas rupestres
do Baixo-Amazonas, sem nunca chegar aos acordos de cooperação
entre Brasília e a comunidade internacional. Tenho tentado
dizer isto nos dois incipientes (porque há muito a pesquisar
e divulgar por quem tenha talento e queira, o que não é
meu caso) ensaios que escrevi, “Novíssima Viagem Filosófica”
(in Revista Iberiana) e “Amazônia Latina e a terra sem mal”.
Oxalá, neste ano do qüinquagésimo quarto aniversário
da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em que
se vai inaugurar na capital da República Federativa do Brasil
a sede oficial da Organização do Tratado de Cooperação
Amazônica – OTCA, segundo notícia dos jornais; seja
também marco da amazonização da América
do Sul (em vez da temida “internacionalização”). O
triunfo do desenvolvimento sustentável e da paz mundial desde
a América do Sol até os confins da Terra.
De fato, a educação nacional
(confundida vagamente com instrução pública)
sonega o direito humano de termos uma cultura e uma identidade próprias
no conjunto étnico, geocultural e político da nacionalidade.
Tal é a verdadeira questão regional, no contexto do
pacto federativo, como se apresenta neste início de século
e de milênio. As elites metropolitanas (ignorantes da realidade
dos Brasis) tentam impor a todo custo a menoridade do termo “regional”
em contraposição a “nacional” e “mundial”. Quando
a realidade está mais próxima das comunidades locais.
E a aldeia global só faz sentido na interação
democrática de “um milhão” de aldeias com pés
no chão da cultura local e da natureza biorregional. É
isto que talvez precisamos saber através da educação
para construir o futuro, fundamentado nos direitos humanos e na
proteção do meio ambiente.
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No entanto, o Brasil tem compromisso e história com esse
futuro. Nossas escolas devem divulgar a brilhante atuação
brasileira na formulação da declaração
da ONU sobre direitos humanos; através de seu representante,
que foi o jornalista e acadêmico Austregésilo de Athayde,
durante as discussões e negociações do texto
da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamados
na memorável noite de 10 de dezembro de 1948, em Paris, pela
Assembléia Geral da ONU.
Com isto, não será nunca motivo para temermos a realização
desse ideal humanitário. Somente a falta de informação
e de educação da sociedade brasileira poderá
permitir que pescadores de águas turvas venham confundir
o povo com aquilo que, na verdade, é o mais brilhante diploma
da humanidade que o Brasil ajudou a elaborar. Que, em última
análise, dá garantia da posse territorial da Amazônia
aos amazônidas, se abolida completamente todas as formas de
colonialismo e exaltada (sem xenofobia, nem ufanismo) a contribuição
vital dos povos nativos na construção da Amazônia
e sua opção histórica pela comunhão
do Brasil.
O novo patriotismo chama-se desenvolvimento sustentável,
justiça social, meio ambiente seguro e saudável para
todos. Assim, o dia mundial da Declaração dos Direitos
Humanos proclamados pela ONU deve ser festejado como uma data das
mais queridas pelos cidadãos da Amazônia.
O que sabem os brasileiros (notadamente
o Congresso Nacional) sobre a fronteira norte, a respeito deste
seu Extremo-Norte, que o maior escritor da Ilha do Marajó,
Dalcídio Jurandir; desenhou no romance-mapa, num grande painel
da Amazônia inteira aqui retratada no espaço eco-cultural
do Ver-o-Peso?
Neste fim e meio do mundo, ao redor de 26 de janeiro de 1500, o
navegador espanhol Vicente Pinzón inaugurou a história
do Brasil de modo infame: capturou logo na chegada os primeiros
“negros da terra” (escravos indígenas) dentre índios
marajoaras. Um infeliz exemplar de mucura fêmea com seus filhotes
mortos em alto mar, foi no embrulho chamado de animal monstruoso.
Sendo este marsupial da ilha de Marinatambal (Marajó), a
primeira notícia biogeográfica da América do
Sul.
Pois bem, há ao menos três
coisas na Ilha do Marajó cuja ignorância e desmazelo
pátrio clamam aos céus:
A primeira delas é a dívida histórica do Brasil
à gente marajoara na esquecida Paz do rio Mapuá de
26 de agosto de 1659, negociada sabiamente pelo padre Antônio
Vieira e os Sete Caciques do Marajó. Com esta paz e vassalagem
ao rei Dom João IV de Portugal, entre graves riscos e incertezas
buscadas; houve termo do invencível bloqueio dos índios
das Ilhas à colonização portuguesa no vale
amazônico.
Foi assim que pôde se encerrar o perigoso comércio
entre nheengaíbas e holandeses, ao mesmo tempo que Portugal
perdia aos invasores suas colônias na Ásia e tinha
o Nordeste brasileiro sob ocupação. E o perigo fora
tanto que, na Europa, o próprio Vieira em posto diplomático
na Holanda não trepidou em sugerir ao embaixador dom Francisco
Coutinho, a entrega de Pernambuco ou o Maranhão para conservar
o resto do Brasil e a independência do reino lusitano. Então,
isto não vale nada para estar neste silêncio mato adentro,
entregue às malárias e roncos dos guaribas pelos estreitos
de Breves, enquanto a Universidade brasileira ainda soletra o velho
ditado mazombo da ex-colônia portuguesa? Pois, era mais valioso
fundar o futuro da Comunidade de Países de Língua
Portuguesa e revitalizar a amizade dos povos luso-brasileiros e
ibero-americanos, assim eu creio.
Sem aquela longínqua e esquecida paz de 1659, entre brancos
e índios; não estaríamos aqui eu e o leitor
a nos inquietar de “Amazônia” nenhuma... Pelo menos da minha
parte, e os mais “caboclos brasileiros” jamais teríamos vindo
ao mundo... Se isto não é História, então
o que é?
A Paz de 1659 é base autóctone do uti possidetis de
mais de mil anos antes de Jesus Cristo. Transmitido aos chefes lusitanos,
praticamente em comodato histórico pelos chefes indígenas
da foz do Amazonas, para sustentação jurídica
da posse luso-brasileira de 1750, ancorada no tempo arqueológico
da amazonidade.
Assim, o Brasil gigante esteve a ponto de morrer no berço
da sua natural ancestralidade. Salvaram-no da mortalidade infantil
o missionário João de Souto Maior e o diplomata jesuíta
Antônio Vieira, neto de uma “serviçal mulata” para
não dizer negra africana, doméstica do solar do Conde
de Unhão.
Falta agora, para definitiva consolidação da história
do povo brasileiro, recuperar e tombar nos limites de Anajás
e Breves, nas profundezas da Ilha invicta, o sítio histórico
da Igreja do Santo Cristo. Lugar de memória do acordo entre
índios tupis e nuaruaques desavindos desde a pré-história,
harmonizados por via deste encontro com os colonizadores debaixo
da bandeira da Restauração da independência
portuguesa.
A despeito da famosa viagem de Pedro Teixeira a Quito, a ocupação
lusa que não marcharia sem arredar antes – por bem ou por
mal – a feroz resistência dos Nheengaíbas. Cuja conquista
talvez ficasse embargada para sempre, não fosse a arriscada
negociação diplomática entre o Colégio
de Santo Alexandre e os Sete Caciques nheengaíbas. Foi assim
que se abriu o portão do rio das amazonas à soberania
de Portugal transmitida depois ao Brasil independente pela Adesão
do Pará em 1823.
O segundo escândalo é a formidável dívida
ao desconhecido bon sauvage da conquista do rio das amazonas. Cujos
herdeiros vegetam agora, na pele dos caboclos seus descendentes,
no marasmo social e na marginalidade econômica entregues ao
deus dará. Fato histórico ignorado pelo Brasil moderno
ingrato da sua enorme territorialidade possibilitada pelos arcos
de guerra do povo Tupinambá.
E que se refere à falta de tombamento do sítio Araquiçaua
(literalmente, “o lugar onde o sol ata sua rede de dormir”), no
ciclo mítico da Terra sem Males (tema da Campanha da Fraternidade
2002, da CNBB). Este sítio, na foz do rio Arari, é
um dos vários lugares do “porto do Sol”. Que, no passado
pré-histórico atraíram, ao longo do caminho
dos séculos, os caraíbas do Sul do país do
pau-brasil até o destino final da utopia selvagem, além
da linha tordesilhana nos confins da Amazônia.
Foi o lugar onde o mito naufragou ou foi engolido pela Cobra grande.
Mas a Terra sem mal (aspiração universal de toda a
humanidade) não morreu. No futuro, através da ciência
e tecnologia do Trópico Úmido, ela ainda poderá
ser achada. Falam da mitologia, por diversos modos: Curt Nimuendaju,
Métraux, Florestan Fernandes, Pierre e Hélène
de Clastre, Darcy Ribeiro, Ronaldo Vainfas e outros. Precisamos
agora continuar a saga dos antepassados aborígenes pela conexão
da Etnologia com a História, através da ponte de uma
política eco-cultural inovadora e consistente.
Por fim, o mais triste escândalo e mágoa da gente marajoara
é o assalto e ruína do nosso patrimônio arqueológico.
Pretérita certidão de nascimento e de identidade da
mais brilhante civilização neotropical em terras do
Brasil.
Por isto, todo nosso afeto ao Museu do Marajó. Obra comunitária
malsinada, nascida da humildade e valentia da vila de pescadores
do Jenipapo, na margem do grande Lago Arari – berço da Civilização
Marajoara – por iniciativa de um obstinado italiano de nascimento,
marajoara de coração e corpo inteiro: Giovanni Gallo.
Por antigo édito, a pedra colonial será salva: mas,
a idade do barro ao barro retornará....
Porém, o tempo arqueológico vive em nosso inconsciente
coletivo e revigora a civilização marajoara a toda
hora. É a Cobra grande, a telúrica Tulupere dos Wayaná,
a maruana suspensa no círculo cosmo-equatorial pelo cinturão
mágico de asas de borboleta. Suas grandes datas e acontecimento
são as vértebras do espaço-tempo em infinita
reconstrução. Surdem-se como ilhas de aluvião
que cavalgam e navegam o Rio-Mar em busca do mundo lá fora,
com ânsia universalizante da feição neotropical
desta terra Tapuia.
José Varella Pereira, coordenador do projeto “Universidade
Livre Marajó-Amazônia”
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