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JOSÉ VARELLA
A ditadura da Cobra grande
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Ecocultura é romper cadeias
do Medo (a ditadura da “Cobra grande”): inventar o Futuro com
o tempo arqueológico.
A paz vital, segundo uma qualquer
situação ecocultural, é vermelha como o sangue
que sustenta os viventes. A Paz (como a História) é
o prêmio dos sobreviventes da lei da selva; essa rubra paz
não é para descanso dos mortos, mas para o convívio:
a fraternidade dos “guerreiros” da nova Terra sem mal...
A velha utopia messiânica do bon sauvage não se realizou
(por impossível) na Terra plana: porém, a nova utopia
tropical (um novo mundo sem trabalho escravo ou premido pela Pobreza,
sem fome, sem velhice, doenças e morte) remanescente ecocultural
daquela demanda neotropical, poderá ainda ser “achada”
no espaço-tempo da relatividade científico-tecnológica.
A vívida paz não é a pax branca, armada à
sombra de arsenais atômicos e exércitos robotizados
ou a hipocrisia de “sepulcros caiados”... A moeda de troca numa
relação ecocultural é a sinceridade, como
em quaisquer sociedades selvagens: ama-se ou odeia-se, naturalmente,
sem renúncia nem remorso, conforme mandamento da Antropofagia
ritual. Atitudes como esta não fazem o indivíduo
melhor nem pior, apenas verdadeiramente humano.
Viver desta maneira numa região ancestral como a Amazônia
é um privilégio que não deve fechar suas
portas ao resto da Humanidade: todavia o mundo civilizado também
há que fazer por bem merecer o prêmio de uma mitológica
e utópica Terra sem males para todos...
Daí que uma máxima ecocultural que se poderá
tirar de tal conceito é a sabedoria “saída do mato”
(cabocla) que diz: eu não sei o certo (a verdade), mas
do errado (da má experiência) eu sei... O que significa
reconhecer que se aprende mais com os erros, próprios ou
alheios, do que mesmo com doutrinas professorais. Portanto, a
memória cultivada na experiência do passado e na
esperança do avenir, faz a diferença entre a história
propriamente dita e a farsa da história...
A lição do tucumanzeiro
espinhoso, rico de pomos dourados, sabores e mitos ancestrais.
Exemplo clássico ecocultural
poderia ser citado com referência ao simbólico “caroço
de tucumã” (Astrocarium vulgare) no ciclo romanesco do
Extremo-Norte, de Dalcídio Jurandir. Conforme análise
antropológica do pesquisador Vicente Salles, o personagem-chave
do ciclo romanesco dalcidiano, Alfredo, alter ego do autor; realiza
um jogo mágico ao longo de nove romances do total de onze
da obra completa, com um caroço de tucumã com que
o menino brinca enquanto “viaja” em cismas pelo tempo e o espaço
do romance.
Pelo qual, o menino Alfredo empreende a fuga da realidade opressiva
na ilha do Marajó e imagina um futuro feliz para si e a
“criaturada grande” do escritor: a população tradicional
amazônica catequizada e mestiçada com negros remanescentes
de escravos e brancos herdeiros de antigos degredados ou exilados
no isolamento colonial de Marinatambalo (Marajó).
Pois bem, Salles observa como o folclore
marajoara penetrou o romanceiro do Extremo-Norte, no caso do mito
da Primeira Noite do mundo. A qual se achava guardada no fundo
do rio, escondida pela Cobra grande dentro de um caroço
de tucumã... O homem amazônico de 12 mil anos de
idade (classificado, estranhamente, como Homo sapiens, variedade
Tapuya; por ninguém menos que o sábio iluminista
de Coimbra e naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira,
em sua magistral Viagem Philosophica, entre 1783 e 1792); aprendiz
da vida no cenário equinocial do Novo Mundo, o “H. sapiens,
var. Tapuya” teve por grãos-mestres a cobras, lagartos,
peixes, aves e árvores. Ídolos terríveis
como o Jaguar e o Gavião Real (Harpia) sanguinolentos,
sugestivos do canibalismo que se depura, pouco a pouco, na antropofagia
ritual. E, enfim, no rito eucarístico das devoções
sincréticas do catolicismo caboclo permeado de crenças
dos Orixás e Caruanas.
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Deuses vários e o célebre espírito demiurgo
Jurupari; herói civilizador portador da Língua Geral
(veiculo, ao mesmo tempo, de éditos europeus e novos costumes
vindo d’além mar; como também da cultura invasora
trazida pelo bon sauvage tupinambá) até os confins
da terra amazônica, o Nheengatu. Pelo qual se deu a verdadeira
“invenção” da Amazônia (no século XVII)
fundindo a diversidade cultural do Ocidente (com o imaginário
bárbaro dos celtiberos e o cânone grego-romano através
do cristianismo ibérico; quando não alguma heresia
cristã-nova em contrabando) aportada pelos portugueses e
a Babel das línguas nativas; e enfim (no século XVIII)
o contributo poliétnico afro-brasileiro.
Diz o mito: a filha da Cobra
grande ia se casar e a mãe quis dar à noiva a “primeira
noite do mundo” como dote de casamento. Até então,
o tempo era uniforme: brilhava um único dia sem fim feito
exclusivamente para o trabalho. Nada de lua e estrelas, ou hora
para brincar, folgar, fazer amor e sonhar... Foi aí que a
Boiúna mandou três escravos dela buscar a noite, que
estava escondida dentro de um caroço de tucumã no
fundo do rio. Os escravos quando pegaram o caroço de tucumã
escutaram dentro dele estranhas vozes, que nunca havia ouvido antes
(pios, coaxos, uivos...). Cheios de curiosidade, quebraram o caroço
para ver o que havia dentro: eis que uma grande sombra escapou dali
e cobriu o mundo, e com ela os bichos noturnos (curujas, sapos,
morcegos) vieram à terra.
A Cobra grande soube logo da “presepada” de seus servos e por castigo
lhes transformou em macacos-da-noite. Pois, no mundo mágico
amazônico “macaco já foi gente” e homens são
filhos de árvores, cobras, peixes... Assim, não é
espanto que a literatura amazônica seja emanação
desse mundo surreal. Mas, por que o tucumanzeiro com seus espinhos
acerados pôde dar fruto para o mito e o romance marajoara?
Além do doce sumo do fruto suculento da palmeira espinhenta,
que dá caldo à saborosa canhapira; o caroço
abriga a larva de um besouro chamado “caturra” que dentro dele se
desenvolve até abrir um buraco no duro e preto coquinho para
sair e voar. E aí, talvez, se ache o nexo entre realidade
e mito: entre natureza e cultura, urdido pelo índio naturalista
e imaginativo. A larva (comestível e fornecedora de óleo
finíssimo e translúcido), chamada “bararu” se alimenta
da amêndoa e cresce dentro do caroço até se
transformar na “caturra”. E bicho da noite que vaga pelos campos
com os vagalumes entre touças de tucumã e vêm
à morada dos homens, atraídos pelas luzes.
A serpente que morde a própria
cauda: ou a Boiúna cósmica.
Mas, como a Cobra grande entra
nessa estória de índio marajoara? Porque ela é
a Phisis neotropical: a grande mãe da natureza e da gente
(nas Guianas, entre os Waianá; mais do que as grandes sucurijus
ou anacondas, a “verdadeira” cobra grande é um ser astral
suspenso no cosmo por um cinturão de asas de borboleta).
E aqui a orgulhosa Civilização (que transforma em
dogmas eternos lendas tradicionais da Mesopotâmia e inventou
a Bomba Atômica) tem na invadida e conquistada terra dos Tapuias
(Amazônia moderna) feios pecados, que o belo e corajoso gesto
apostólico do Papa, na República Dominicana; ainda
falta absolver (malgrado o cânone obsoleto ultra aequinoxialem
non peccavit) e os Estados cristãos indenizar depois de três
séculos e meio de fraudes, enganos e burlas à legislação
“pra inglês ver” que proíbe trabalho escravo.
No Marajó, a Cobra grande é ente mitológico
que se confunde com as forças telúricas que formaram
os diversos rios da ilha grande (cf. Alexandre Rodrigues Ferreira,
in “Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou
Marajó”, Lisboa, 1783): coincidentemente, rios e lagos da
maior ilha marítimo-fluvial do mundo, são viveiros
de grandes cobras constritoras (sucuriju dos tupis, anaconda dos
aruaques), animal totêmico.
Na antiguidade hindu o tempo cósmico era representado por
uma grande serpente mordendo a própria cauda. Querendo, dessa
maneira alegórica, dizer que o espaço e o tempo dos
deuses e/ou da divindade são uma coisa só: sem começo
e fim. Mas o curto tempo dos homens e das coisas deste mundo finito
serve de espelho à consciência do infinito? Há
um “saber” (ou pertinência) natural implícito na matéria
que se organiza, estrutura, especializa, individualiza, torna-se
orgânica, complexa e se converte em espírito por vias
da arte e da experiência de estar no mundo.
Talvez, o ovo e a galinha (a bem dizer, a potência e o ato
da filosofia clássica aristotélica) surgem simultaneamente
no mundo (partes inseparáveis da mesma espécie). E,
portanto, matéria e espírito são apenas categorias
da nossa vã filosofia embatucada no labirinto das suas dúvidas
e fracassos. As palavras são árvores de uma outra
floresta obscura: por onde Dante viaja entre o inferno e o paraíso...
A “religião natural” da humanidade (como dizia o filósofo
anticorrupção clerical Voltaire, no “Cândido”)
é progenitora (tal como a avó de Jesus Cristo, Sant’Anna)
de grandes e complexas religiões; das artes, ciências,
da política e filosofia.
No princípio, o conhecimento era verdadeiramente enciclopédico.
Deuses e mortais conviviam no espaço das aldeias: não
havia fronteiras entre o finito e o infinito, unidos pela ponte
da magia. Xamãs e sacerdotes são o elo perdido dessa
ponte arruinada pelo peso excessivo da Modernidade. O romance dalcidiano,
interpretando e recriando a cultura popular, recupera mitos antigos
que sobrevivem em meio à mestiçagem cabocla. Desse
modo, ao tocar o nervo da apartação social do fim
do mundo amazônico o realismo mágico marajoara realiza
o prodígio de um bálsamo milagroso que gira em torno
da metáfora do espinhento Astrocarium vulgare e seu fruto
encantado, portador da “primeira noite do mundo”: o repouso e o
sonho (sem esquecer a doçura do sumo e a invenção
gastronômica da divina canhapira).
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não reflete necessariamente o ponto de vista da Agência
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