JOSÉ VARELLA

A olvidada história do cacique Piié no “clímax igapóreo” do planeta

 


Os ensaios “Novíssima Viagem Filosófica” e “Amazônia Latina e a terra sem mal”, de autoria de José Varella; copilam e resumem de maneira sucinta o encontro de Piié, cacique dos Mapuá com o superior dos Jesuítas na Amazônia, padre Antônio Vieira (cf. Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil), ocorrido em 1659 no rio dos Mapuá (no município de Breves-PA).

Este fato merece releitura democrática pela História do Brasil, como acontecimento central da autodeterminação dos povos nativos da Amazônia brasileira em opção pelo “mundo que o português inventou” e que teve conseqüência no movimento protocabano paraense de 14 de abril de 1823, para união das duas colônias portuguesas na América em um país-continente unificado chamado Brasil.

Até fins do século XX e inícios do século XXI, a exclusão dos povos indígenas e negros como protagonistas de sua própria história sonegou muitos fatos importantes da história do Povo Brasileiro. Como se sabe, o geógrafo Roberto Monteiro de Oliveira já notou, em sua tese de doutorado, que na Amazônia o estado precedeu a sociedade: e, portanto, compreende-se como e porque a historiografia das regiões amazônicas é omissa sobre a contribuição histórica dessa gente sem a qual seria mais provável que o “rio das Amazonas” tivesse caído na dependência de outra potência colonial que não as monarquias da Península Ibérica.

Uma das mais fortes razões para essa exclusão histórica (além do preconceito teocrático contra “filhos de Caim” inicialmente e naturalista-iluminista contra “tribos primitivas”, depois) foi a política imperialista do primeiro ministro de D. José I, o célebre conde de Oeiras e depois marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo relativa ao Estado do Grão-Pará e Maranhão (Amazônia lusitana).

Até então, como informa José Ribamar Bessa Freire, em “Rio Babel” (p. 17), a formação e integração da Amazônia contou não só com as armas e os remos dos guerreiros tupinambás, mas também com a sua língua e a sua cultura: “Durante dois séculos, índios, mestiços, negros e portugueses trocaram experiências e bens, e desenvolveram a maioria de suas práticas sociais, trabalhando, narrando, cantando, cantando, rezando, amando, sonhando, sofrendo, reclamando, rindo e se divertindo nessa língua indígena [o Nheengatu, ou Língua Geral Amazônica; verdadeiramente a língua amazônica hoje falada em mistura com o português popular], que se firmou como língua supra-étnica, difundida amplamente pelos missionários, por meio da catequese. Contou para isso, inicialmente, com o apoio do próprio Estado monárquico que, depois, em meados do século XVIII, modificando sua política, proibiu a língua geral e tornou obrigatório o uso da língua portuguesa.”

Esta súbita mudança de direção, como se sabe; comparável à primeira intervenção estrangeira com a instalação dos entrepostos holandeses no rio Amazonas (1599, 1600...) e a fundação de Belém (1616) com a guerra de expulsão dos Hereges (1623-1643); levou à criação do Diretório dos Índios (1757) e expulsão dos Jesuítas (1759) determinando extinção de muitas “tribos” e conversão de “índios” em “caboclos”: assim como aldeias indígenas que são “elevadas” por decreto em Lugares e Vilas de nomes portugueses; “tapuios” (índios catequizados) passaram a figurar como “civilizados”, quando não mesmo “portugueses”...

Como se explica a expansão extraordinária dessa língua tupi na Amazônia, que levou a língua portuguesa a reboque pelos sertões? Pelo fato de que a conquista do “rio das Amazonas” se deu à custas do índio tupinambá. Até aí guiado por caraíbas (profetas indígenas), à procura de um paraíso mágico dito a “Terra sem mal” (Yby marãey). Este leit motif e a forte resistência armada à avançada tupinambá e ao domínio ibérico oposta pelos habitantes das Ilhas (por isto, chamados na dita língua-geral Nheengaíbas, nuaruaques “falantes da língua ruim”, bárbara; ou de Marajó, do tupi marãyu, “gente malvada”), foram excluídos do panteão amazônico. Em parte, por ignorância antropológica e preconceito cultural, mas, sobretudo por esconder um embate metafísico: que ficou patente no estigma satânico com que capuchinhos franceses assinalaram Jurupari, o oráculo dos índios no Maranhão.




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O Encontro de Mapuá (sec. XVII), entretanto, é daqueles fatos históricos esquecidos ou mal estudados, visto até como incrível (para não dizer inverossímil) pela historiografia oficial. Algumas vezes, causa admiração o fato de que sendo o Marajó área cultural originalmente aruaque, a sua toponímia, termos referentes à flora e à fauna aparentemente não guardem vestígios da língua insulana, para se expressar em Língua-Geral (exemplo geral, sucuriju (tupi) em vez de anaconda (aruaque); pirarucu (tupi) e não arapaima (aruaque), taperebá (“fruta de tapera”, tupi), em aruaque memben; etc.), como se pode ver em Vicente Chermont de Miranda (Vocabulário Paraense) e outros autores. Pode-se dizer que houve em Marajó uma “tupinização”, por força da colonização; da mesma maneira como diz Bessa Freire a construção territorial da Amazônia luso-brasileira através da Língua Geral Amazônica ou Nheengatu para, depois, ser ocupada pela língua oficial portuguesa: da mesma maneira, a colonização foi precedida pela conquista de arcos e remos tupinambás e seus terríveis mamelucos nordestinos a serviço de Portugal.

Ora, se a conquista do “rio das Amazonas” foi possível pela audácia dos enganados buscadores da “Terra sem mal”; a invenção e consolidação da Amazônia propriamente dita não seria possível sem a participação dos missionários e seus catecúmenos tapuias, que construíram a paz e plantaram a nascente sociedade “saída do mato” (cabocla). Os historiadores pós-modernos não encontrarão muita dificuldade para topar as pegadas de índios e negros mocambeiros nos caminhos que levaram as regiões amazônicas até o estágio atual, na comunidade de países amazônicos.

Aí, sem dúvida, ao lado do precursor dos direitos humanos na Amazônia, o jesuíta Antônio Vieira; aparecerá a figura até então obscura do ladino cacique Piié dos Mapuá à frente do acordo de paz entre a federação das sete nações nheengaíbas e o Estado do Maranhão e Grão-Pará: mais extraordinário ainda, quando se observa implícito no ato da florestal Igreja do Santo Cristo, à beira do igapó; o armistício inter-étnico que permitiu passagem franca a tupinambás e portugueses para o interior do vale amazônico. Sem mais hostilidades de costume.

Pelas quais, pelo menos desde 1538 (cf. Nelson Papavero et. ali., in O Novo Éden, 2002), pelejavam índios vindos, respectivamente, das Guianas e do Nordeste brasileiro confrontados no grande “Mar Doce” em migrações de direções geográficas contrárias: queriam uns conquistar a Terra-Firme (no país do Arapari, constelação do Cruzeiro do Sul) e outros o lugar mágico onde o “sol ata rede para dormir” (Araquiçaua), em sua antiga marcha para Oeste.

Confundidos no labirinto amazônico, massacrados, dizimados por epidemias aportadas pelo colonizador, aculturados entre a cruz e a espada: através dos sobreviventes e descendentes ainda lhes restará alguma chance? Antes do “juízo final” com que a Civilização que condenou esta gente ao inferno verde será salva dela mesma. Ou, pela irredutível barbaridade dos buscadores do Paraíso terreno vencida, conhecendo seus últimos dias.

José Varella Pereira, coordenador do projeto “Universidade Livre Marajó-Amazônia”

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