Em novembro de 2002, Ouro Preto, em Minas Gerais, foi foco dos noticiários.
Por conta de um incidente envolvendo um caminhão que transportava
bebidas, que desgovernado e bêbado atingiu o chafariz da igreja
de Nossa Senhora do Pilar.
Em qualquer outro lugar este fato seria considerado apenas mais
um acidente. No entanto, o conjunto arquitetônico da cidade
em questão possui o título de patrimônio cultural
da humanidade pela Unesco, e o tal chafariz já decorava o
local por cerca 300 anos. Este episódio poderia ter sido
encarado como um aviso, afinal, o que um caminhão daqueles
fazia pelas ruelas da cidade histórica. Se até em
cidades como São Paulo, esses veículos são
obrigados a respeitar alguns limites. Enfim, o prejuízo já
havia se consumado.
Na última semana o segundo aviso veio em forma de grito de
socorro. O grande e belo casarão da praça Tiradentes,
a principal de Ouro Preto, já não ilustra mais a paisagem
da cidadela. Um incêndio, ainda sem causa comprovada, destruiu
completamente a construção, que abrigava lojas no
térreo e um hotel no pavimento superior. A cena foi desoladora.
Uma mistura de indignação e impotência tomou
conta dos moradores que acompanhavam o trabalho dos bombeiros, que
enfrentaram muito mais que o fogo. Equipamento adequado não
havia, água suficiente tão pouco. Foi preciso a ajuda
de batalhões vindos de outras cidades para conter o incêndio
que destruiu não só as paredes do velho casarão,
mas também uma parte de nossa história. Sob os olhares
confusos, o prédio do século 17, sucumbiu ao feroz
fogo que o consumiu até os alicerces. Será que estaremos
condenados a referir-se ao nosso patrimônio cultural e natural
como algo do passado. Quantos mais terão que queimar para
que tomemos alguma atitude.
O problema de Ouro Preto, vai muito além do velho chafariz
ou do casarão da rua do Ouvidor. Sua descaracterização
arquitetônica ameaça diariamente o casario histórico.
E não é só o centro de Ouro Preto que corre
risco. Sítios arqueológicos e áreas verdes
próximos à cidade estão sendo apagados do mapa.
A ocupação irregular e desordenada – um processo destrutivo
e irreversível – vai consumindo os entornos da cidade e aos
poucos sufocando a história do País.
Ouro Preto possui mais de mil construções tombadas,
com destaque para quarenta e cinco monumentos; abriga inúmeras
obras do mestre Aleijadinho; foi berço da Inconfidência
Mineira, em 1789, e é sem dúvida um dos mais belos
e importantes conjuntos arquitetônicos, não só
de Minas Gerais, mas do Brasil e do Mundo. Esses são motivos
mais do que suficientes para ser preservada.
Os problemas são conhecidos, a lista de órgãos
que podem e devem estar envolvidas é extensa. Desde a Unesco
(Organização das Nações Unidas para
a Educação, Ciência e Cultura); do Iphan (Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional);
dos poderes municipal, estadual e federal, com destaque para os
ministérios do Turismo, Meio Ambiente e o recém-criado
da Cidade, passando por ONGs, paróquias e a própria
população. Diante deste batalhão é impossível
acreditar que não se encontre uma solução para
esse descaso.
Ouro Preto não quer virar cinzas e espera desesperadamente
por uma ação.
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responsabilidade de seus autores.
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