Se
o “Pará é a obra-prima da Amazônia”, o Marajó
é a jóia da coroa do tesouro encontrado no grande
Mar Doce do planeta, do navegador Vicente Pinzón (janeiro
de 1500), talvez achado em 1498, pelo cartógrafo d’el-rei
Duarte Pacheco Pereira em preparação secreta ao Descobrimento
do Brasil a caminho das Índias. Histórica empresa
da partição do mundo na raia de Tordesilhas, 1494.
Em disputa entre Espanha, Portugal e as demais potências da
Europa quinhentista no estuário da maior bacia fluvial da
Terra, confluência equinocial do Mar-Oceano com os grandes
rios Amazonas e Pará. Circunstância marítima
que faz irmãs em ventura e desventura ilhas do Atlântico:
Antilhas, Marajó, Maranhão, Santa Catarina, Canárias,
Cabo Verde, Açores, Ilha da Madeira e outras tantas que a
linha tordesilhana descoseu e desatou. Mas, o pós-500 Anos
há de conectar. Pois fronteiras foram feitas para imperar
e separar, porém hão de servir a aproximar e cooperar.
Tal como o fio da biodiversidade através da Rede Mundial
de Reservas da Biosfera, do Programa Homem e Biosfera da UNESCO,
mediante a “Estratégia de Sevilha”, podem costurar o mundo
esfrangalhado melhor que ninguém.
O problema do “pacto federativo” é que nossa gente paga o
pato. E a amazônica maravilha está sendo perdida lenta,
mas inexoravelmente. Enquanto, entre chuvas e esquecimento, o socorro
não vem acudir os sítios arqueológicos no Extremo-Norte
brasileiro há mais de sessenta anos, pelo menos. Para não
falar de coisas mais feias e tristes, que se perdem na noite do
tempo e na penumbra dos arquivos da destruição das
Índias Ocidentais, conforme mandei meu fraco grito em nome
dos que não têm voz; no ensaio de 1999, na “Novíssima
Viagem Filosófica” in Revista Iberiana, reiterado em 2002
com “Amazônia Latina e a terra sem mal”... Expedi garrafas
de náufrago sem espera de resposta. Quem acharia a notícia?
Não se pode tapar o sol com peneira: nossa grande Ilha do
Marajó ao coração do magnífico arquipélago
de duas mil e tantas ilhas, no labirinto verde considerado área
de proteção ambiental, no estuário dos “sete
mil rios” da Amazônia; pólo de ecoturismo; está
precisando de cuidados urgentes. Para isto é inútil
procurar bodes expiatórios, aqui ou acolá a torto
e direito. O caso é de pedir socorro sem demoras a quem o
pode dar. Dalcídio Jurandir e Giovanni Gallo os maiores intérpretes
da “criaturada grande” já morreram – como diria o poeta Carlos
Drummond de Andrade também já no país donde
ninguém volta – sobre suas tumbas, no Rio de Janeiro e em
Cachoeira do Arari, comparáveis a tesos de camutins dos ancestrais
traídos pela memória nacional, chove indiferentemente...
Para salvar o tesouro marajoara nenhuma mágica política
ou marquetingue pode dar jeito. Mas, tão-só a ação
solidária (debaixo para cima, como requer a boa democracia)
unindo a população tradicional da ilha-mãe
do paraensismo à Ciência, Educação e
Cultura – conexão do local ao global – para recuperar e conservar
tamanha riqueza, a tempo de curar a anemia infecciosa do IDH da
gente cabocla. O qual, como vírus mortal ataca e destrói,
tudo que se investe sem preventivo da fome e da devastação
do meio ambiente.
Na verdade, a semente do tratamento já foi plantada quando
da criação educativa patrimonial e comunitária
de “O Nosso Museu” [Museu do Marajó], em 1973, pelo padre
Gallo, à beira do venerável Lago Arari – este moribundo
patrimônio brasileiro, berço da civilização
marajoara – alma da arte e literatura do Extremo-Norte. O primeiro
passo foi dado por gente marajoara no seio da Latinidade, por grande
coincidência na década de 1970. Quando no plano mundial
se gestava a pororoca ambientalista e a bandeira dos Direitos Humanos
tremulava, levantada desde 1948 pela ONU, contra ditaduras da Guerra
Fria. O polêmico jesuíta italiano naturalizado brasileiro
Giovanni Gallo, por necessidade e acaso repórter da província
de pesca do Arari, publicava a instâncias do romancista Dalcídio
Jurandir o dilacerante livro-depoimento “Marajó: a ditadura
da água”, cuja tirania do destino fez reféns a remanescentes
de pescadores pré-históricos. |
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Assim, fui honrado pelo convite da Associação dos
Municípios do Arquipélago do Marajó – AMAM
e a oportunidade em representar a Companhia Paraense de Turismo
– PARATUR no ato de abertura da exposição itinerante
do Museu do Marajó, ocorrida em Santa Cruz do Arari. Onde,
mais uma vez, evoquei o 26 de Agosto de 1659 como o Dia da Amazônia
Brasileira. Quando, depois de 36 anos de conflitos cruentos – devido
à concorrência estrangeira – os nativos do Marajó
aceitaram a paz com as gentes do Pará sob condição
da liberdade dos índios e a soberania luso-brasileira. O
que possibilitaria, a 28 de Maio de 1823, na heróica Muaná,
a adesão do Pará ao Império do Brasil. Assisti
fazendeiros e pescadores assinarem juntos a “Carta do Lago Marajoara”
endereçada ao Presidente Lula, com data de 7 de setembro
de 2003. Um pedido que as obras imortais de Dalcídio Jurandir
e Giovanni Gallo encerram em essência e a gente marajoara
quer dar conseqüência.
O que pretendemos, os descendentes de índios que o padre
Antônio Vieira livrou do genocídio e cativeiro requerido
por Belém e autorizado por Lisboa? Nada menos que liberdade
e cidadania, implícita no atraiçoado acordo de 1659.
Nacionalidade conquistada em lutas de vida e morte no passado, para
sair da apartação social em que se vegetou devido
ao imperial desdém do monarca, em 1665 (com a arbitrária
doação da Ilha dos Nheengaíbas, ao ministro
d’El-Rei e patriarca dos Barões de Joanes) e à servidão
do Diretório dos Índios, de 1755. Que, num rosário
de séculos de amargura, resulta no indecente IDH de ignorância,
ilhamento e Fome que ainda acorrenta os caboclos à gleba
ingrata.
A “Carta do Lago” recomendada ao GDM pede atenção
da União sobre a importância etno-histórica
e ambiental do Arari; em coordenação com o Estado
do Pará em preparativos à declaração
do título ao Lago Arari de patrimônio natural da humanidade,
e de reserva da biosfera à Ilha do Marajó. O patrimônio
marajoara – monumenta do barro dos princípios do mundo neotropical
– sofre cruel preconceito face à hegemonia da pedra talhada
e dos metais, que a UNESCO precisa rever. Conforme a Lei Federal
nº 9.985/2000, art. 41; reserva da biosfera é um modelo
de gestão integrada e participativa, adotado internacionalmente.
A Ilha do Marajó poderá ser beneficiada de diversas
unidades de conservação pontuais, sem prejuízo
de atividades econômicas compatíveis, a exemplo da
Reserva da Biosfera do Pantanal. Que vai bem, obrigado.
O que sabem os brasileiros (notadamente
o Congresso Nacional) sobre a fronteira norte, a respeito deste
seu Extremo-Norte, que o maior escritor da Ilha do Marajó,
Dalcídio Jurandir; desenhou no romance-mapa, num grande painel
da Amazônia inteira aqui retratada no espaço eco-cultural
do Ver-o-Peso?
Neste fim e meio do mundo, ao redor de 26 de janeiro de 1500, o
navegador espanhol Vicente Pinzón inaugurou a história
do Brasil de modo infame: capturou logo na chegada os primeiros
“negros da terra” (escravos indígenas) dentre índios
marajoaras. Um infeliz exemplar de mucura fêmea com seus filhotes
mortos em alto mar, foi no embrulho chamado de animal monstruoso.
Sendo este marsupial da ilha de Marinatambal (Marajó), a
primeira notícia biogeográfica da América do
Sul.
Pois bem,
há ao menos três coisas na Ilha do Marajó cuja
ignorância e desmazelo pátrio clamam aos céus:
A primeira delas é a dívida histórica do Brasil
à gente marajoara na esquecida Paz do rio Mapuá de
26 de agosto de 1659, negociada sabiamente pelo padre Antônio
Vieira e os Sete Caciques do Marajó. Com esta paz e vassalagem
ao rei Dom João IV de Portugal, entre graves riscos e incertezas
buscadas; houve termo do invencível bloqueio dos índios
das Ilhas à colonização portuguesa no vale
amazônico.
Foi assim que pôde se encerrar o perigoso comércio
entre nheengaíbas e holandeses, ao mesmo tempo que Portugal
perdia aos invasores suas colônias na Ásia e tinha
o Nordeste brasileiro sob ocupação. E o perigo fora
tanto que, na Europa, o próprio Vieira em posto diplomático
na Holanda não trepidou em sugerir ao embaixador dom Francisco
Coutinho, a entrega de Pernambuco ou o Maranhão para conservar
o resto do Brasil e a independência do reino lusitano. Então,
isto não vale nada para estar neste silêncio mato adentro,
entregue às malárias e roncos dos guaribas pelos estreitos
de Breves, enquanto a Universidade brasileira ainda soletra o velho
ditado mazombo da ex-colônia portuguesa? Pois, era mais valioso
fundar o futuro da Comunidade de Países de Língua
Portuguesa e revitalizar a amizade dos povos luso-brasileiros e
ibero-americanos, assim eu creio.
Sem aquela longínqua e esquecida paz de 1659, entre brancos
e índios; não estaríamos aqui eu e o leitor
a nos inquietar de “Amazônia” nenhuma... Pelo menos da minha
parte, e os mais “caboclos brasileiros” jamais teríamos vindo
ao mundo... Se isto não é História, então
o que é?
A Paz de 1659 é base autóctone do uti possidetis de
mais de mil anos antes de Jesus Cristo. Transmitido aos chefes lusitanos,
praticamente em comodato histórico pelos chefes indígenas
da foz do Amazonas, para sustentação jurídica
da posse luso-brasileira de 1750, ancorada no tempo arqueológico
da amazonidade.
Assim, o Brasil gigante esteve a ponto de morrer no berço
da sua natural ancestralidade. Salvaram-no da mortalidade infantil
o missionário João de Souto Maior e o diplomata jesuíta
Antônio Vieira, neto de uma “serviçal mulata” para
não dizer negra africana, doméstica do solar do Conde
de Unhão.
Falta agora, para definitiva consolidação da história
do povo brasileiro, recuperar e tombar nos limites de Anajás
e Breves, nas profundezas da Ilha invicta, o sítio histórico
da Igreja do Santo Cristo. Lugar de memória do acordo entre
índios tupis e nuaruaques desavindos desde a pré-história,
harmonizados por via deste encontro com os colonizadores debaixo
da bandeira da Restauração da independência
portuguesa.
A despeito da famosa viagem de Pedro Teixeira a Quito, a ocupação
lusa que não marcharia sem arredar antes – por bem ou por
mal – a feroz resistência dos Nheengaíbas. Cuja conquista
talvez ficasse embargada para sempre, não fosse a arriscada
negociação diplomática entre o Colégio
de Santo Alexandre e os Sete Caciques nheengaíbas. Foi assim
que se abriu o portão do rio das amazonas à soberania
de Portugal transmitida depois ao Brasil independente pela Adesão
do Pará em 1823.
O segundo escândalo é a formidável dívida
ao desconhecido bon sauvage da conquista do rio das amazonas. Cujos
herdeiros vegetam agora, na pele dos caboclos seus descendentes,
no marasmo social e na marginalidade econômica entregues ao
deus dará. Fato histórico ignorado pelo Brasil moderno
ingrato da sua enorme territorialidade possibilitada pelos arcos
de guerra do povo Tupinambá.
E que se refere à falta de tombamento do sítio Araquiçaua
(literalmente, “o lugar onde o sol ata sua rede de dormir”), no
ciclo mítico da Terra sem Males (tema da Campanha da Fraternidade
2002, da CNBB). Este sítio, na foz do rio Arari, é
um dos vários lugares do “porto do Sol”. Que, no passado
pré-histórico atraíram, ao longo do caminho
dos séculos, os caraíbas do Sul do país do
pau-brasil até o destino final da utopia selvagem, além
da linha tordesilhana nos confins da Amazônia.
Foi o lugar onde o mito naufragou ou foi engolido pela Cobra grande.
Mas a Terra sem mal (aspiração universal de toda a
humanidade) não morreu. No futuro, através da ciência
e tecnologia do Trópico Úmido, ela ainda poderá
ser achada. Falam da mitologia, por diversos modos: Curt Nimuendaju,
Métraux, Florestan Fernandes, Pierre e Hélène
de Clastre, Darcy Ribeiro, Ronaldo Vainfas e outros. Precisamos
agora continuar a saga dos antepassados aborígenes pela conexão
da Etnologia com a História, através da ponte de uma
política eco-cultural inovadora e consistente.
Por fim, o mais triste escândalo e mágoa da gente marajoara
é o assalto e ruína do nosso patrimônio arqueológico.
Pretérita certidão de nascimento e de identidade da
mais brilhante civilização neotropical em terras do
Brasil.
Por isto, todo nosso afeto ao Museu do Marajó. Obra comunitária
malsinada, nascida da humildade e valentia da vila de pescadores
do Jenipapo, na margem do grande Lago Arari – berço da Civilização
Marajoara – por iniciativa de um obstinado italiano de nascimento,
marajoara de coração e corpo inteiro: Giovanni Gallo.
Por antigo édito, a pedra colonial será salva: mas,
a idade do barro ao barro retornará....
Porém, o tempo arqueológico vive em nosso inconsciente
coletivo e revigora a civilização marajoara a toda
hora. É a Cobra grande, a telúrica Tulupere dos Wayaná,
a maruana suspensa no círculo cosmo-equatorial pelo cinturão
mágico de asas de borboleta. Suas grandes datas e acontecimento
são as vértebras do espaço-tempo em infinita
reconstrução. Surdem-se como ilhas de aluvião
que cavalgam e navegam o Rio-Mar em busca do mundo lá fora,
com ânsia universalizante da feição neotropical
desta terra Tapuia.
José Varella Pereira, coordenador do projeto “Universidade
Livre Marajó-Amazônia”.
O conteúdo dos artigos publicados
nesta seção não reflete necessariamente o ponto
de vista da Agência Ambiental Pick-upau, sendo de inteira
responsabilidade de seus autores.
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