A estória do “fim da História” versus a “era de incertezas”
pintou cenário estúrdio no vestíbulo do terceiro
milênio. Tudo começou paresque que nem num conto de
Eduardo Galeano acerca do povoado de San José de Gracias:
lugar fantástico onde o povo se refugiou nos muros da igreja
à espera do profetizado fim do mundo, que não houve
e nada mais sucedeu além da enfadonha repetição
de dias e dias sem graça nenhuma... Enquanto o protocolo
de Kyoto não vem para valer, o verão do hemisfério
norte vai ateando incêndios e fazendo vítimas do calor.
Diz-que a Zona Tórrida quer emigrar atrás dos desempregados
tropicais à zona temperada em busca de melhores dias e salários
idem...
O medo dos antípodas cresce igual à insustentável
exploração econômica e concentração
da riqueza global. Carradas de madeira extraída sem dó
da Floresta Amazônica repetem o ciclo idiota do pau-brasil
com seus índios e caboclos desafortunados de hoje imitando
tupiniquins e tabajaras de outrora a derrubar a Mata Atlântica
a fim de tingir roupas civilizadas nas Europas. Assim que o “desenvolvimento”
da Fome (além de elementar procura por comida, a gente tem
fome de saber), segundo dados da ONU, uma quinta parte da população
da Terra subsiste com menos de 2% da renda mundial. Na outra ponta,
uma quinta parte da mesma população infarta-se e desperdiça
no consumo irracional de 80% dessa renda mundial. Esta disparatada
situação cospe na cara dos donos do mundo e não
é brinquedo, não; de menino brincar no parque bonitinho
da cidade alienada.
Diante de tamanho absurdo, um aluno de segundo grau sonharia com
lições simples de aritmética. Poderia, por
exemplo, imaginar fórmulas de emagrecimento voluntário
de sociedades obesas mediante regime de crescimento zero de privilégio
de classe. Ainda que não seja este, exatamente, o remédio
da Pobreza da imensa maioria dos terráqueos, já seria
um alívio preventivo de maiores calamidades globais e locais.
Com engenho macro político, os 80% da renda mundial ficariam
divididos entre 1º e 3º Mundo, na proporção
de 77% do bolo aos mais ricos (corte de “apenas” 3% da gordura)
e acréscimo de 3% à proteína dos mais pobres
(um “milagre” de crescimento de 50% renda da camada de miseráveis
da Terra).
Façanha econômica com merecimento de prêmio Nobel
ao pai da proeza. Dado o primeiro passo, as desigualdades mais gritantes
iriam, talvez, reduzindo-se no contingente mais crítico das
disparidades mundiais (relativo a 40% da humanidade!). Deste modo,
a pobreza iria acabando em “suaves” prestações sem
sacrificar no altar da justiça social a acumulação
da riqueza dos últimos 500 anos de colonização.
Chamaríamos a isto o quê? De consenso da Libéria,
talvez. Em homenagem à história deste edificante país
re-exportado, da margem ocidental do Atlântico para o lugar
de origem, como pneus usados.
Restaria ainda pensar sobre o destino da maioria, 60% da população
da Terra (a faixa mediana constituída de não-pobres
e não-ricos) com sua frugal fatia de 20% do consumo do bolo
mundial. Este 2º Mundo, a “classe média” mundial, deveria
abolir do vocabulário a categoria “emergente”. Em vez disso,
passaria a ser considerada “âncora” do desenvolvimento sustentável.
Ou seja, desistiria voluntariamente da vã tentativa de se
igualar ao 1º Mundo. Dependendo, entretanto, de acordo para
investimentos humanos não-monetários ao incremento
da qualidade de vida, poderia fazer o novo paradigma funcionar,
estimulando a “desinflação” progressiva da classe
abastada simultaneamente ao desenvolvimento humano dos mais pobres.
Claro, este é apenas um exercício
de “ingenuidade” que serve unicamente a demonstrar a insanidade
do regime universal pseudodemocrático que se quer impor ao
resto do mundo. A probabilidade de implementação é
nula. Segue triunfante a teoria das “ilimitadas necessidades” dos
saciados, associada à congelada demanda dos despossuídos...
Não por erro conceitual, mas pelo desconcerto global que
antes destruiu a Liga das Nações e minou agora a ONU.
Servirá tão-só para ilustrar o nó Górdio
modernidade.
Onde entra a “nossa” Amazônia nessa história maluca?
No óbvio desvio de foco. Se não fosse ela o desvio
planetário, seria a Patagônia, a Antarctica, as ilhas
Galapagos, as calotas polares. Ou qualquer outro lugar distante,
como a antiga Pérsia ou a Índia de todos os sonhos
e pesadelos.
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Mesmo assim, a Floresta Amazônica vale uma missa. Daí
que se deve inventar a Cidade nova amazônica. Não por
acaso, há quem considere na arquitetura dos shoppings centers
a arcaica necessidade de conforto e segurança dos primitivos
habitantes do planeta, refugiados em cavernas. Embrião da
primeira cidadela. É a questão: o homem tecnicamente
evoluído permanece mentalmente retardado e ambientalmente
desastrado. Porém, a história natural explica a estranheza
do indivíduo face aos outros.
Quem tem a Amazônia tem deveres especiais. A visão
das cidades como Belém e Manaus não é animadora.
Se o espaço urbano vai mal, como irá o interior da
terra? Todo mundo se preocupa com a Floresta. Mas, não vê
a necessidade das pequenas cidades e povoações donde
nasce a agressão à natureza para exportar a preço
vil matéria-prima e trabalho mal assalariado. Há na
relação de compra e venda entre ricos e pobres uma
ética ultrajada que as “leis” de mercado apenas conseguem
mascarar. Afinal, na verdade, o que é ser humano?
Hoje se sabe que a Amazônia não é (mais) “pulmão”
do mundo. Porém deveria ser coração pulsante
da América do Sol: principal artéria de água
doce do Planeta. A salvação da Rain Forest depende
dos povos do Mar Doce. Precisa-se de uma utopia urbana autóctone.
Cidades silvo-urbanas inteligentes e cem mil aldeias satélites.
Pólo cultural e científico inspirado no espírito
do Kuarup. Reserva da Biosfera em Marajó, a maior ilha flúvio-marinha
da Terra. O Lago Arari, berço da civilização
pré-colombiana marajoara, declarado Patrimônio Natural
da Humanidade. Criação de Zonas Verdes de Paz em unidades
de conservação do ecossistema em cooperação
com as comunidades tradicionais. Oásis eco-culturais planetários
abertos à cooperação internacional. Utopia
selvagem dos índios resgatada pela alta tecnologia. A História
“vem apenas de começar”, segundo o poeta Aimé Cesaire.
O que sabem os brasileiros (notadamente
o Congresso Nacional) sobre a fronteira norte, a respeito deste
seu Extremo-Norte, que o maior escritor da Ilha do Marajó,
Dalcídio Jurandir; desenhou no romance-mapa, num grande painel
da Amazônia inteira aqui retratada no espaço eco-cultural
do Ver-o-Peso?
Neste fim e meio do mundo, ao redor de 26 de janeiro de 1500, o
navegador espanhol Vicente Pinzón inaugurou a história
do Brasil de modo infame: capturou logo na chegada os primeiros
“negros da terra” (escravos indígenas) dentre índios
marajoaras. Um infeliz exemplar de mucura fêmea com seus filhotes
mortos em alto mar, foi no embrulho chamado de animal monstruoso.
Sendo este marsupial da ilha de Marinatambal (Marajó), a
primeira notícia biogeográfica da América do
Sul.
Pois bem, há ao menos três
coisas na Ilha do Marajó cuja ignorância e desmazelo
pátrio clamam aos céus:
A primeira delas é a dívida histórica do Brasil
à gente marajoara na esquecida Paz do rio Mapuá de
26 de agosto de 1659, negociada sabiamente pelo padre Antônio
Vieira e os Sete Caciques do Marajó. Com esta paz e vassalagem
ao rei Dom João IV de Portugal, entre graves riscos e incertezas
buscadas; houve termo do invencível bloqueio dos índios
das Ilhas à colonização portuguesa no vale
amazônico.
Foi assim que pôde se encerrar o perigoso comércio
entre nheengaíbas e holandeses, ao mesmo tempo que Portugal
perdia aos invasores suas colônias na Ásia e tinha
o Nordeste brasileiro sob ocupação. E o perigo fora
tanto que, na Europa, o próprio Vieira em posto diplomático
na Holanda não trepidou em sugerir ao embaixador dom Francisco
Coutinho, a entrega de Pernambuco ou o Maranhão para conservar
o resto do Brasil e a independência do reino lusitano. Então,
isto não vale nada para estar neste silêncio mato adentro,
entregue às malárias e roncos dos guaribas pelos estreitos
de Breves, enquanto a Universidade brasileira ainda soletra o velho
ditado mazombo da ex-colônia portuguesa? Pois, era mais valioso
fundar o futuro da Comunidade de Países de Língua
Portuguesa e revitalizar a amizade dos povos luso-brasileiros e
ibero-americanos, assim eu creio.
Sem aquela longínqua e esquecida paz de 1659, entre brancos
e índios; não estaríamos aqui eu e o leitor
a nos inquietar de “Amazônia” nenhuma... Pelo menos da minha
parte, e os mais “caboclos brasileiros” jamais teríamos vindo
ao mundo... Se isto não é História, então
o que é?
A Paz de 1659 é base autóctone do uti possidetis de
mais de mil anos antes de Jesus Cristo. Transmitido aos chefes lusitanos,
praticamente em comodato histórico pelos chefes indígenas
da foz do Amazonas, para sustentação jurídica
da posse luso-brasileira de 1750, ancorada no tempo arqueológico
da amazonidade.
Assim, o Brasil gigante esteve a ponto de morrer no berço
da sua natural ancestralidade. Salvaram-no da mortalidade infantil
o missionário João de Souto Maior e o diplomata jesuíta
Antônio Vieira, neto de uma “serviçal mulata” para
não dizer negra africana, doméstica do solar do Conde
de Unhão.
Falta agora, para definitiva consolidação da história
do povo brasileiro, recuperar e tombar nos limites de Anajás
e Breves, nas profundezas da Ilha invicta, o sítio histórico
da Igreja do Santo Cristo. Lugar de memória do acordo entre
índios tupis e nuaruaques desavindos desde a pré-história,
harmonizados por via deste encontro com os colonizadores debaixo
da bandeira da Restauração da independência
portuguesa.
A despeito da famosa viagem de Pedro Teixeira a Quito, a ocupação
lusa que não marcharia sem arredar antes – por bem ou por
mal – a feroz resistência dos Nheengaíbas. Cuja conquista
talvez ficasse embargada para sempre, não fosse a arriscada
negociação diplomática entre o Colégio
de Santo Alexandre e os Sete Caciques nheengaíbas. Foi assim
que se abriu o portão do rio das amazonas à soberania
de Portugal transmitida depois ao Brasil independente pela Adesão
do Pará em 1823.
O segundo escândalo é a formidável dívida
ao desconhecido bon sauvage da conquista do rio das amazonas. Cujos
herdeiros vegetam agora, na pele dos caboclos seus descendentes,
no marasmo social e na marginalidade econômica entregues ao
deus dará. Fato histórico ignorado pelo Brasil moderno
ingrato da sua enorme territorialidade possibilitada pelos arcos
de guerra do povo Tupinambá.
E que se refere à falta de tombamento do sítio Araquiçaua
(literalmente, “o lugar onde o sol ata sua rede de dormir”), no
ciclo mítico da Terra sem Males (tema da Campanha da Fraternidade
2002, da CNBB). Este sítio, na foz do rio Arari, é
um dos vários lugares do “porto do Sol”. Que, no passado
pré-histórico atraíram, ao longo do caminho
dos séculos, os caraíbas do Sul do país do
pau-brasil até o destino final da utopia selvagem, além
da linha tordesilhana nos confins da Amazônia.
Foi o lugar onde o mito naufragou ou foi engolido pela Cobra grande.
Mas a Terra sem mal (aspiração universal de toda a
humanidade) não morreu. No futuro, através da ciência
e tecnologia do Trópico Úmido, ela ainda poderá
ser achada. Falam da mitologia, por diversos modos: Curt Nimuendaju,
Métraux, Florestan Fernandes, Pierre e Hélène
de Clastre, Darcy Ribeiro, Ronaldo Vainfas e outros. Precisamos
agora continuar a saga dos antepassados aborígenes pela conexão
da Etnologia com a História, através da ponte de uma
política eco-cultural inovadora e consistente.
Por fim, o mais triste escândalo e mágoa da gente marajoara
é o assalto e ruína do nosso patrimônio arqueológico.
Pretérita certidão de nascimento e de identidade da
mais brilhante civilização neotropical em terras do
Brasil.
Por isto, todo nosso afeto ao Museu do Marajó. Obra comunitária
malsinada, nascida da humildade e valentia da vila de pescadores
do Jenipapo, na margem do grande Lago Arari – berço da Civilização
Marajoara – por iniciativa de um obstinado italiano de nascimento,
marajoara de coração e corpo inteiro: Giovanni Gallo.
Por antigo édito, a pedra colonial será salva: mas,
a idade do barro ao barro retornará....
Porém, o tempo arqueológico vive em nosso inconsciente
coletivo e revigora a civilização marajoara a toda
hora. É a Cobra grande, a telúrica Tulupere dos Wayaná,
a maruana suspensa no círculo cosmo-equatorial pelo cinturão
mágico de asas de borboleta. Suas grandes datas e acontecimento
são as vértebras do espaço-tempo em infinita
reconstrução. Surdem-se como ilhas de aluvião
que cavalgam e navegam o Rio-Mar em busca do mundo lá fora,
com ânsia universalizante da feição neotropical
desta terra Tapuia.
José Varella Pereira, coordenador do projeto “Universidade
Livre Marajó-Amazônia”.
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de vista da Agência Ambiental Pick-upau, sendo de inteira
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