JOSÉ VARELLA

Utopia amazônica, procura-se

 

A estória do “fim da História” versus a “era de incertezas” pintou cenário estúrdio no vestíbulo do terceiro milênio. Tudo começou paresque que nem num conto de Eduardo Galeano acerca do povoado de San José de Gracias: lugar fantástico onde o povo se refugiou nos muros da igreja à espera do profetizado fim do mundo, que não houve e nada mais sucedeu além da enfadonha repetição de dias e dias sem graça nenhuma... Enquanto o protocolo de Kyoto não vem para valer, o verão do hemisfério norte vai ateando incêndios e fazendo vítimas do calor. Diz-que a Zona Tórrida quer emigrar atrás dos desempregados tropicais à zona temperada em busca de melhores dias e salários idem...

O medo dos antípodas cresce igual à insustentável exploração econômica e concentração da riqueza global. Carradas de madeira extraída sem dó da Floresta Amazônica repetem o ciclo idiota do pau-brasil com seus índios e caboclos desafortunados de hoje imitando tupiniquins e tabajaras de outrora a derrubar a Mata Atlântica a fim de tingir roupas civilizadas nas Europas. Assim que o “desenvolvimento” da Fome (além de elementar procura por comida, a gente tem fome de saber), segundo dados da ONU, uma quinta parte da população da Terra subsiste com menos de 2% da renda mundial. Na outra ponta, uma quinta parte da mesma população infarta-se e desperdiça no consumo irracional de 80% dessa renda mundial. Esta disparatada situação cospe na cara dos donos do mundo e não é brinquedo, não; de menino brincar no parque bonitinho da cidade alienada.

Diante de tamanho absurdo, um aluno de segundo grau sonharia com lições simples de aritmética. Poderia, por exemplo, imaginar fórmulas de emagrecimento voluntário de sociedades obesas mediante regime de crescimento zero de privilégio de classe. Ainda que não seja este, exatamente, o remédio da Pobreza da imensa maioria dos terráqueos, já seria um alívio preventivo de maiores calamidades globais e locais. Com engenho macro político, os 80% da renda mundial ficariam divididos entre 1º e 3º Mundo, na proporção de 77% do bolo aos mais ricos (corte de “apenas” 3% da gordura) e acréscimo de 3% à proteína dos mais pobres (um “milagre” de crescimento de 50% renda da camada de miseráveis da Terra).

Façanha econômica com merecimento de prêmio Nobel ao pai da proeza. Dado o primeiro passo, as desigualdades mais gritantes iriam, talvez, reduzindo-se no contingente mais crítico das disparidades mundiais (relativo a 40% da humanidade!). Deste modo, a pobreza iria acabando em “suaves” prestações sem sacrificar no altar da justiça social a acumulação da riqueza dos últimos 500 anos de colonização. Chamaríamos a isto o quê? De consenso da Libéria, talvez. Em homenagem à história deste edificante país re-exportado, da margem ocidental do Atlântico para o lugar de origem, como pneus usados.

Restaria ainda pensar sobre o destino da maioria, 60% da população da Terra (a faixa mediana constituída de não-pobres e não-ricos) com sua frugal fatia de 20% do consumo do bolo mundial. Este 2º Mundo, a “classe média” mundial, deveria abolir do vocabulário a categoria “emergente”. Em vez disso, passaria a ser considerada “âncora” do desenvolvimento sustentável. Ou seja, desistiria voluntariamente da vã tentativa de se igualar ao 1º Mundo. Dependendo, entretanto, de acordo para investimentos humanos não-monetários ao incremento da qualidade de vida, poderia fazer o novo paradigma funcionar, estimulando a “desinflação” progressiva da classe abastada simultaneamente ao desenvolvimento humano dos mais pobres.

Claro, este é apenas um exercício de “ingenuidade” que serve unicamente a demonstrar a insanidade do regime universal pseudodemocrático que se quer impor ao resto do mundo. A probabilidade de implementação é nula. Segue triunfante a teoria das “ilimitadas necessidades” dos saciados, associada à congelada demanda dos despossuídos... Não por erro conceitual, mas pelo desconcerto global que antes destruiu a Liga das Nações e minou agora a ONU. Servirá tão-só para ilustrar o nó Górdio modernidade.

Onde entra a “nossa” Amazônia nessa história maluca? No óbvio desvio de foco. Se não fosse ela o desvio planetário, seria a Patagônia, a Antarctica, as ilhas Galapagos, as calotas polares. Ou qualquer outro lugar distante, como a antiga Pérsia ou a Índia de todos os sonhos e pesadelos.


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Mesmo assim, a Floresta Amazônica vale uma missa. Daí que se deve inventar a Cidade nova amazônica. Não por acaso, há quem considere na arquitetura dos shoppings centers a arcaica necessidade de conforto e segurança dos primitivos habitantes do planeta, refugiados em cavernas. Embrião da primeira cidadela. É a questão: o homem tecnicamente evoluído permanece mentalmente retardado e ambientalmente desastrado. Porém, a história natural explica a estranheza do indivíduo face aos outros.

Quem tem a Amazônia tem deveres especiais. A visão das cidades como Belém e Manaus não é animadora. Se o espaço urbano vai mal, como irá o interior da terra? Todo mundo se preocupa com a Floresta. Mas, não vê a necessidade das pequenas cidades e povoações donde nasce a agressão à natureza para exportar a preço vil matéria-prima e trabalho mal assalariado. Há na relação de compra e venda entre ricos e pobres uma ética ultrajada que as “leis” de mercado apenas conseguem mascarar. Afinal, na verdade, o que é ser humano?

Hoje se sabe que a Amazônia não é (mais) “pulmão” do mundo. Porém deveria ser coração pulsante da América do Sol: principal artéria de água doce do Planeta. A salvação da Rain Forest depende dos povos do Mar Doce. Precisa-se de uma utopia urbana autóctone. Cidades silvo-urbanas inteligentes e cem mil aldeias satélites. Pólo cultural e científico inspirado no espírito do Kuarup. Reserva da Biosfera em Marajó, a maior ilha flúvio-marinha da Terra. O Lago Arari, berço da civilização pré-colombiana marajoara, declarado Patrimônio Natural da Humanidade. Criação de Zonas Verdes de Paz em unidades de conservação do ecossistema em cooperação com as comunidades tradicionais. Oásis eco-culturais planetários abertos à cooperação internacional. Utopia selvagem dos índios resgatada pela alta tecnologia. A História “vem apenas de começar”, segundo o poeta Aimé Cesaire.

O que sabem os brasileiros (notadamente o Congresso Nacional) sobre a fronteira norte, a respeito deste seu Extremo-Norte, que o maior escritor da Ilha do Marajó, Dalcídio Jurandir; desenhou no romance-mapa, num grande painel da Amazônia inteira aqui retratada no espaço eco-cultural do Ver-o-Peso?

Neste fim e meio do mundo, ao redor de 26 de janeiro de 1500, o navegador espanhol Vicente Pinzón inaugurou a história do Brasil de modo infame: capturou logo na chegada os primeiros “negros da terra” (escravos indígenas) dentre índios marajoaras. Um infeliz exemplar de mucura fêmea com seus filhotes mortos em alto mar, foi no embrulho chamado de animal monstruoso. Sendo este marsupial da ilha de Marinatambal (Marajó), a primeira notícia biogeográfica da América do Sul.

Pois bem, há ao menos três coisas na Ilha do Marajó cuja ignorância e desmazelo pátrio clamam aos céus:
A primeira delas é a dívida histórica do Brasil à gente marajoara na esquecida Paz do rio Mapuá de 26 de agosto de 1659, negociada sabiamente pelo padre Antônio Vieira e os Sete Caciques do Marajó. Com esta paz e vassalagem ao rei Dom João IV de Portugal, entre graves riscos e incertezas buscadas; houve termo do invencível bloqueio dos índios das Ilhas à colonização portuguesa no vale amazônico.

Foi assim que pôde se encerrar o perigoso comércio entre nheengaíbas e holandeses, ao mesmo tempo que Portugal perdia aos invasores suas colônias na Ásia e tinha o Nordeste brasileiro sob ocupação. E o perigo fora tanto que, na Europa, o próprio Vieira em posto diplomático na Holanda não trepidou em sugerir ao embaixador dom Francisco Coutinho, a entrega de Pernambuco ou o Maranhão para conservar o resto do Brasil e a independência do reino lusitano. Então, isto não vale nada para estar neste silêncio mato adentro, entregue às malárias e roncos dos guaribas pelos estreitos de Breves, enquanto a Universidade brasileira ainda soletra o velho ditado mazombo da ex-colônia portuguesa? Pois, era mais valioso fundar o futuro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e revitalizar a amizade dos povos luso-brasileiros e ibero-americanos, assim eu creio.

Sem aquela longínqua e esquecida paz de 1659, entre brancos e índios; não estaríamos aqui eu e o leitor a nos inquietar de “Amazônia” nenhuma... Pelo menos da minha parte, e os mais “caboclos brasileiros” jamais teríamos vindo ao mundo... Se isto não é História, então o que é?

A Paz de 1659 é base autóctone do uti possidetis de mais de mil anos antes de Jesus Cristo. Transmitido aos chefes lusitanos, praticamente em comodato histórico pelos chefes indígenas da foz do Amazonas, para sustentação jurídica da posse luso-brasileira de 1750, ancorada no tempo arqueológico da amazonidade.

Assim, o Brasil gigante esteve a ponto de morrer no berço da sua natural ancestralidade. Salvaram-no da mortalidade infantil o missionário João de Souto Maior e o diplomata jesuíta Antônio Vieira, neto de uma “serviçal mulata” para não dizer negra africana, doméstica do solar do Conde de Unhão.

Falta agora, para definitiva consolidação da história do povo brasileiro, recuperar e tombar nos limites de Anajás e Breves, nas profundezas da Ilha invicta, o sítio histórico da Igreja do Santo Cristo. Lugar de memória do acordo entre índios tupis e nuaruaques desavindos desde a pré-história, harmonizados por via deste encontro com os colonizadores debaixo da bandeira da Restauração da independência portuguesa.

A despeito da famosa viagem de Pedro Teixeira a Quito, a ocupação lusa que não marcharia sem arredar antes – por bem ou por mal – a feroz resistência dos Nheengaíbas. Cuja conquista talvez ficasse embargada para sempre, não fosse a arriscada negociação diplomática entre o Colégio de Santo Alexandre e os Sete Caciques nheengaíbas. Foi assim que se abriu o portão do rio das amazonas à soberania de Portugal transmitida depois ao Brasil independente pela Adesão do Pará em 1823.

O segundo escândalo é a formidável dívida ao desconhecido bon sauvage da conquista do rio das amazonas. Cujos herdeiros vegetam agora, na pele dos caboclos seus descendentes, no marasmo social e na marginalidade econômica entregues ao deus dará. Fato histórico ignorado pelo Brasil moderno ingrato da sua enorme territorialidade possibilitada pelos arcos de guerra do povo Tupinambá.

E que se refere à falta de tombamento do sítio Araquiçaua (literalmente, “o lugar onde o sol ata sua rede de dormir”), no ciclo mítico da Terra sem Males (tema da Campanha da Fraternidade 2002, da CNBB). Este sítio, na foz do rio Arari, é um dos vários lugares do “porto do Sol”. Que, no passado pré-histórico atraíram, ao longo do caminho dos séculos, os caraíbas do Sul do país do pau-brasil até o destino final da utopia selvagem, além da linha tordesilhana nos confins da Amazônia.

Foi o lugar onde o mito naufragou ou foi engolido pela Cobra grande. Mas a Terra sem mal (aspiração universal de toda a humanidade) não morreu. No futuro, através da ciência e tecnologia do Trópico Úmido, ela ainda poderá ser achada. Falam da mitologia, por diversos modos: Curt Nimuendaju, Métraux, Florestan Fernandes, Pierre e Hélène de Clastre, Darcy Ribeiro, Ronaldo Vainfas e outros. Precisamos agora continuar a saga dos antepassados aborígenes pela conexão da Etnologia com a História, através da ponte de uma política eco-cultural inovadora e consistente.

Por fim, o mais triste escândalo e mágoa da gente marajoara é o assalto e ruína do nosso patrimônio arqueológico. Pretérita certidão de nascimento e de identidade da mais brilhante civilização neotropical em terras do Brasil.

Por isto, todo nosso afeto ao Museu do Marajó. Obra comunitária malsinada, nascida da humildade e valentia da vila de pescadores do Jenipapo, na margem do grande Lago Arari – berço da Civilização Marajoara – por iniciativa de um obstinado italiano de nascimento, marajoara de coração e corpo inteiro: Giovanni Gallo. Por antigo édito, a pedra colonial será salva: mas, a idade do barro ao barro retornará....

Porém, o tempo arqueológico vive em nosso inconsciente coletivo e revigora a civilização marajoara a toda hora. É a Cobra grande, a telúrica Tulupere dos Wayaná, a maruana suspensa no círculo cosmo-equatorial pelo cinturão mágico de asas de borboleta. Suas grandes datas e acontecimento são as vértebras do espaço-tempo em infinita reconstrução. Surdem-se como ilhas de aluvião que cavalgam e navegam o Rio-Mar em busca do mundo lá fora, com ânsia universalizante da feição neotropical desta terra Tapuia.

José Varella Pereira, coordenador do projeto “Universidade Livre Marajó-Amazônia”.

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