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Só o futuro me interessa! Plágio de François
Mitterrand (pelo mesmo caminho, La Condamine e Charles Goodyear
não creditaram aos Cambebas o invento da borracha e donos
da patente japonesa do “Cupuaçu” não pensaram nos
caboclos da Amazônia). Sou um caboclo. Conforme os “brancos”,
literalmente “saído do mato”. Claro, os brancos saíram
do planeta Cripton (codinome da lenda extraterrestre dos arianos).
Explica-se por que órfãos do conde de Buffon têm
geral desprezo de mato, bichos, índios e pretos... Conforme
o amazonólogo Samuel Benchimol, somos 20 milhões de
atrasados “caboclos”, “cholos”, “tapuios”, “crioulos”, “curibocas”,
“carafuzes”, etecetera e tal. Extraídos da Floresta de muitas
“Amazônias” num arquipélago de espantos. Ilhas que
não estão no Gibi, digo no mapa-múndi.
Somos índios destribalizados e tribos perdidas da Diáspora.
Mal e porcamente cristianizados nos Descimentos à força
pelas Tropas de Resgate. Quem não sabe do que se está
falando fica logo reprovado no vestibular e dispensado de falar
em Amazônia, meu amor e minha insônia. Quem há
de nos indenizar o “paraíso perdido”? Valeu a pena excomungar
o paganismo dos índios, expulsar franceses e holandeses para
morrer de inveja do Primeiro Mundo, seqüestrar e extinguir
a Companhia de Jesus, afastar a heresia da Reforma para andar suplicando
o Reino de Deus? Valeu a pena a utopia sebastianista, a lusotropicalização,
o Diretório de Pombal, a Adesão à independência
do Brasil, a abertura do rio Amazonas, a Borracha? A SUDAM, a SUFRAMA,
as grandes Companhias S/A valeram a pena aos tapuios?
Está chegando a hora do Juízo amazônico. Afinal,
a era colonial já vai para 500 e tontos anos. Vagamos num
“verde vago mundo” (Benedito Monteiro). Só o Futuro nos interessa,
merci protetorado do G-7 & Company. O “Brasil, país do
futuro” (Stefan Zweig) ainda dirá nosso melhor caminho. Agora
que “a esperança venceu o medo” (Lula), o Extremo-Norte dalcidiano
acena à Marina morena Ministra: Me faça o favor, não
pinte este rosto amazônico que eu gosto, doutra cor que não
seja verde Ver-o-Peso tapuia. Vejam meu retrato falado, diz o povo
caboclo: pareço cara-pálida, mas meu coração
é encarnado como as penas do guará (íbis rubra).
Tenho alma negra que nem a noite da Cobra grande. Sou rústico
e paciente como um búfalo, no limite do animal. Nem mais
um til. Lembrai-vos da Cabanagem!... Não me deixem as populações
tradicionais esperando Godot.
O rio Tocantins toca nosso porto no Pará. Não vá
tocar suas “águas para o mar” (Nilson Chaves) a fim de distrair
mágoas e desviar caminho de Carajás. Não fique
a barragem de Tucuruí com a rolha tecnoburocrática,
a ver navios de minério e madeira bruta ao largo. E “nada
no bolso ou nas mãos” (Caetano Veloso) da nossa gente sub
do sub desenvolvimento Pará-Maranhão. O Rio Doce é
aqui, no mar doce de Pinzón. Neste vale de Jequitinhonha
que a Vale com seus sócios e ricos clientes au bon marché
deveria fazer decente.
Estamos nós no mato sem cachorro. Para salvar a Floresta
é preciso inovar a Cidade Amazônica. Construir cidades
silvo-urbanas inteligentes e cem mil aldeias-globais, em vez da
explosiva e corrosiva co-urbanação de um milhão
de habitantes em mal agasalhados dormitórios periféricos.
Queremos C&T made in Amazônia. Capital política
e biotecnológica Pará 2020, no Xingu. Corredor Ecoturístico
da Amazônia, com portão planetário no rio Guamá.
Belém do Grão-Pará metrópole vislumbrada
por Henri Coudreau, explorateur do século XIX, cidadão
amazônico futurista, nascido no velho mundo. Tudo isto já
existe em embrião, há anos, no Museu Paraense Emílio
Goeldi. Modelo Rocinha belle époque.
“O mal existe. É preciso cultivar nosso jardim” (Voltaire)
e plantar zonas verdes de paz em unidades de conservação
e fazendas aquáticas em reservas marinhas. Oásis de
cooperação para o desenvolvimento sustentável.
Minha pátria é a Utopia! Disse-me um cidadão
do mundo. Faço-lhe o plágio. Original somente o pecado
do jardim do Éden... Civilização vive de passado,
medo e vingança (indústria bélica e clínica
psiquiátrica também). É preciso consciência.
Saber quem faz comércio de “bicho de sete cabeças”
(Geraldo Azevedo). Só o futuro nos interessa.
José Varella Pereira, coordenador
do projeto “Universidade Livre Marajó-Amazônia”
O conteúdo dos artigos publicados
nesta seção não reflete necessariamente o ponto
de vista da Agência Ambiental Pick-upau, sendo de inteira
responsabilidade de seus autores.
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